Thursday, May 13, 2010

A Austeridade Excrementícia

austeridade
s. f.
1. Cuidado escrupuloso em não se deixar dominar pelo que agrada aos sentidos ou deleita a concupiscência.
2. Severidade, rigor.


Não se preocupe, shôtôr…
Leitor,
Sublimemos.

O primeiro ministro e o líder da “oposição”, decidiram em agregação prazenteira que se aumentariam já os impostos ao povo. E quem decide implementa.
Teremos uma agravação extraordinária da taxa de IRS suportada pelas famílias (excepção feita a quem viver do salário mínimo), e um acréscimo de um ponto no IVA.
Comecemos. O Povo aparece em Portugal com qualidades curiosas: É primeiro objecto de elogios ternurentos, almoçaradas em congressos, promessas em lágrima, “agora é que vai ser, amigo”, abraços ríspidos e beijos prolongados.
Passada a bonança, venha a tareia.


...que o povo paga

Já se sabe bem que é esta a rotina da democracia. Mas em Portugal há um paladar acrescentado, uma segunda qualidade exclusiva do canto que nos toca: Aqui vivemos numa constante operação gradual de transferência de capital do povo para o Estado. Este não é um roubo abrupto de rua; antes um lento e progressivo apoderar de bens que dura há décadas, e se vai traduzindo pelas opções palpáveis que nos afectam a vida práctica. Pois bem: a irresponsabilidade e corrupção crescentes do Estado são financiadas com o dinheiro de contribuintes com dívidas (também) em crescendo acentuado.

O Larápio esbraceja elogioso, de fronte a tão generosa atitude do povo. Alguém teria de auxiliar tão amados ministros! Amem-nos, dêem-lhes beijos, dêem-lhes sopa! Não se pode já roubar?
Desde a saída submissa e fragilizada de Guterres em abril de 2002, acentuaram-se duas tendências: O défice e dívida pública aumentaram, e os Portugueses empobreceram. O quê? Mas tudo isto em simultâneo? Isso faz lembrar o travesti fadista, ou o ladrão honesto do Vale da Figueira.
O Estado, incutido na missão do povo, sacrifica-se para o seu bem (como aliás demonstra em campanhas eleitorais). Isso implica que em imbróglios azedos proteja quem o elegeu, se abra, se organize e dê as mãos ao povo para que juntos embarquem os Portugueses rumo à salvação digna que merece qualquer povo. Será?
Por isso diz o Larápio que um défice público acentuado só tem lógica na luz convergente do compromisso, numa acção urgente de salvação extraordinária. Extraordinária? Ora é essa mesma a palavra que usa o governo para descrever o aumento de IRS.”agravação extraordinária”. Verdadinha. Mas a palavra “extraordinário” utilizar-se-ia neste contexto para algo raro, um peso irregular, anormal, imprevisível, inevitável! Deveria fazer-se chorando para o povo, pedindo perdão pela política económica desastrosa e tentando em desespero uma pena de prisão que os deixasse ver os filhos ao fim de semana.
Não será bem isso que se passa. Nem o défice nasceu de tentar resgatar o povo de vida indigna, nem o governo se preocupa com o povo à hora de dormir. Nada. O povo nem sequer integra a equação que os fez integrar o governo.
E neste caso o Larápio pergunta o seguinte: Que buraco é este? Se não serviu o povo para que houve então endividamento? E se não serviu o povo serviu quem?
Mas a factura chega sempre e o povo paga. E usufrui das maravilhas de uma sociedade moderna! Estádios para 50 mil pessoas a receber jogos da terceira divisão, auto-estradas vazias que não causam insónias a quem vive perto, TGV sem mercado mas que oferece “mais uma opção” para quem vai a Madrid (não vá a gente querer pagar mais caro e demorar três vezes mais. Afinal sempre temos os livros da Margarida Rebelo Pinto e não precisamos de fazer check-in!)
Mas alguém perguntou ao povo? Alguém lhe deu escolha? Melhor ensino ou estádios? Nova ponte ou criminalidade reduzida? Novo aeroporto ou Hospitais eficientes? TGV ou uma justiça que se veja? Nada!
Mas então porque nos entram eles pelos bolsos adentro? Porque temos nós de pagar por investimentos imbecis de fim previsível? Não sabiam que no Algarve não há nenhum colosso do futebol mundial? Será surpresa que o Clube de futebol União de Leiria não esgote o estádio ao fim de semana? Não se sabia disto já antes? Porque tem de ser o povo a tapar as suposições idiotas de um executivo corrupto?
Precioso Leitor,
aumentar os impostos não tem de si pecado: é o contexto que o denuncia. Há uma margem de tolerância de erro diferente em cada caso. Depende ela por um lado da precisão e honestidade da estratégia do governo, e por outro da afluência do povo que a suporta. Ora o português médio tolera os dois extremos: um governo que erra e um salário miserável. A consequência é um Estado que gasta assustadoramente sem que o povo lhe veja o benefício, e uma classe média explorada que trabalha para lhes pagar as mordomias.
Comecei pela definição de auseridade.  Ora essa austeridade que nos pedem é precisamente aquela que falta ao Estado mas que temos nós de pagar.
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Monday, March 15, 2010

A Fractura e a Hipótese da Rainha de Copas

Caro Leitor,

Entremos antes pela porta de serviço. Adulteremos a espinha dorsal deste patriotismo forçado que nos embrutece, encostando-nos em tumulto rumo ao doloroso fado de submissão obrigatória.




A fractura cresce, vai dela mesma onde só ela sabe, e incorpora costumes que de longínquos se tornam paredes à simples rotina de um esforço prolongado condizente. Que fractura essa? A do Estado. Melhor: A fractura não é o Estado mas a que nasce entre o Estado e as gentes: O povo que caminha, o Estado que engorda.

Cada dimensão da fractura toma ordem naquilo em que acredita, se lava, mexe, trata dos filhos à hora de deitar e obedece a quem manda. Tudo separado! Fragmentos de decisõezinhas que nos vão entupindo a mudança que já quisemos, mas que por distantes serão antes feitas por outros que virão.

A fractura cresce. O cidadão ouve da boca do político um ruído gasto sintetizado. É um ladrar repetitivo, robótico, alienado. O som adorna os vales, sopram-lhe os ventos do Tejo e chega ao fim da tarde uma qualquer voz grave determinada mas inócua. Não tem direcção certa! Vem da esquerda, da direita, de cima! Os miúdos choram à noite. A gente acorda. O ruído entristece-nos, é já imperceptível, inatingível. Um longo sussurro de diálogos entrelaçados que de tão previsíveis se desligam de nós com o tempo.

O vento entra, o corpo gira, fechamos os olhos mas as responsabilidades chegam sempre de manhã. A fractura rompe mais um palmo e há quem caia pelo buraco dentro. Mas caem sem drama como quem sabe a hora da morte.

Isto de não querer saber da pátria que tal é? Não saberemos? Este patriotismo que nos empurra para a inutilidade da iniciativa será ele válido? Ou é antes uma micose herdada dos avós burgueses?

Quem sabe disto? Algum cientista? Quero vinho.

Mas a revolta quer-se por quem? Nas sondagens não se vê. Onde estará? Em Portugal não anda porque o povo gosta. Todos gostamos que os políticos nos adormeçam à noite. É tudo uma fábula, um remoínho suave que nos embala a agressividade vazia. É uma textura que escorre e nos faz olhar o Tejo com uma esperança azeda e um sorriso tenso, como quem come uma sericaia que não está bem nem mal. Diz-se que está bom quando o moço pergunta. Não é ele quem cozinha e não está isto tão mal que justifique uma reprimenda ao chefe. Vai-se comendo sem vontade nem desconforto. É uma zona assim-assim que se impinge e é conveniente quando se está cansado lá do trabalho.

- Estava boazinha Sim Senhor. Traga lá a conta.

- Muito bem, posso retirar? A continha? Muito bem.

Portugal é um jantar em que a conversa não cativou mas não nos deu chatices. A senhora era simpática mas não tinha charme, a vista prometia mas havia nevoeiro, o peixe era Robalo mas era pastoso de viveiro. O Azeite era barato mas não era mau. A sericaia, essa já se sabe.

É o estado perpétuo da frustração, em que nos deixamos consumir pela vida para que ela nos deixe em paz. A fractura vai crescendo e é já uma muralha. Tem gente à espreita! Para que ela cresça basta que a gente dê uma gorjetazinha ao rapazito. Não estava bom, mas não nos trataram muito mal.





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Wednesday, February 17, 2010

A Confeitaria do Largo do Rato

Estimado leitor,

A irascível e abafadiça entrevista de Daniel Proença de Carvalho ao Jornal “i” não veio só. Antes dele já ilustres independentes como Capoulas Santos e Vital Moreira tinham demonstrado a sua requerida inteligência em forma de frases curtas e parágrafos bloguistas. Devemos tratar estes momentos com carinho, e é por isso que aqui venho partilhar com os meus leitores estes docinhos amargos da confeitaria socialista.




Vivemos num tempo grandioso porque hoje em Portugal se podem separar as duas caras da sociedade civil: os Socratianos e os outros. Porque hoje, perante o que se sabe da pressão sobre a imprensa, os Portugueses se dividem entre duas e só duas opiniões que importa distinguir com urgência:

  1. Quem opina que o segredo de justiça é um direito de todo o cidadão, excepto quando é necessária a sua violação excepcional com vista à clarificação da possibilidade real de um plano que a ser verdadeiro é uma gravíssima ruptura com os pilares de uma Democracia Europeia. E assim, é também infinitamente mais importante do que o direito individual ao segredo de justiça,
  2. Quem opina que o carácter secreto/privado das escutas impede por definição qualquer divulgação independentemente de qualquer tipo de interesse público que possa vir a suscitar, especialmente quando não há importância criminal no contexto (face oculta) em que foi ouvido. Judicialmente as escutas são nulas. O juízo popular não deve por isso condenar José Sócrates através de escutas que não seriam aceites em tribunal.

Estes tempos são bem-vindos porque pela primeira vez se criou um caldo de galinha em que os defensores de Sócrates defendem uma tese de tal forma disforme que é irrespirável. A opinião de um Português sobre este assunto tornou-se de súbito o tira-teimas do po(l)vo!

Não poderá ser real que no nosso planeta terra exista alguma espécie animal que (ao entender o que é uma Democracia) tivesse a opinião número 2. O Larápio promove sempre o debate, mas há assuntos em que a liberade não acode. Não que não seja bem-vinda: ela é que não aparece por se considerar irrelevante.

Pode alguém acreditar honestamente num sujeito que perante uma provável conspiração do Governo visando calar os jornalistas desconcertantes, se interesse mais no valor constitucional do segredo de justiça? Um valor que em Portugal não é respeitado há duas décadas e só causava encolhimentos de ombros até há mês e meio?

Onde andava este súbito charme pela formalidade? Nos almoços do Tivoli?

Danel Proença de Carvalho conta que não se deveria saber das conversas privadas de Sócrates. Eu gostaria de não ter percebido. Privadas? Conversas sobre o controlo dos media são conversas privadas? Privadas são as conversas que tem ele com o seu amor. E essas não se tornam públicas porque não interessam. Nós, o povo, estamos pouco interessados nas aventuras sexuais do Primeiro Ministro ou no que ele diz aos filhos que faz no emprego. Isso sim vem de dentro da família. E sai nas revistas cor-de rosa.

Ora uma troca de impressões ou de ameaças que tenham uma influênciazinha nos conteúdos dos jornais do dia seguinte já não será com toda a certeza uma conversa privada. Isso envolve aliás, uns dez milhões de Portugueses.

Vamos atrás. Esta época é encantadora porque os defensores de Sócrates têm uma posição indefensável. Tratam o segredo de justiça individual como o mais fundamental direito do cidadão mas escusam-se a comentar o Monstro tentacular-ignóbil das pressões e controlo da imprensa, que cresce sem parar nunca. Cresce de noite!

Esperaríamos que um cidadão neutro preocupado com a violação do segredo de justiça tivesse duas características: primeiro que já tivesse preocupado há anos com o segredo de justiça porque já não é isto coisa nova, e segundo que além disso tivesse também preocupado em saber se de facto houve intenção do Polvo em controlar os media.

Vital Moreira, no blogue extraordinariamente previsível que mantém com outros camaradas partidários, escreveu a 9 de Fevereiro que o Estado de Direito estava em causa porque ” os media divulgam reiteradamente matérias em segredo de justiça”. Nem uma palavra sobre o Polvo.

Daniel Proença de Carvalho em entrevista disse que se lesse as escutas divulgadas no “Sol” seria “cúmplice de um crime.” Defende o Procurador, critica juíz de Aveiro, critica o PSD (onde era militante), crê na razão de Sócrates e suas acções contra jornalistas (não fosse ele quem tratava disso) e trata o menino por “Senhor Engenheiro”. Nem uma palavra sobre o Polvo.

Todos os ministros, secretários de estado, Autarcas Socalistas: Nem uma palavra sobre o Polvo.

São inconfundíveis os discípulos Socratianos, e para os destapar basta que digam a sua opinião.

Isto sim, é justiça.






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Sunday, February 14, 2010

Irrelevância da Amplitude (e Salada de Polvo)

Miguel Sousa Tavares juntou-se a mais uma dúzia de vítimas de Abril para nos encarreirar no caminho da razão incontestada; Nós Jovens moralistas nunca entenderemos o que foi realmente a censura. E por isso, isto a que chamamos o ataque à liberade de imprensa não passa de uma brincadeira de meninos loiros no recreio de um infantário na Rua da Lapa.


Há sempre interesse nesta salada de polvo que é a oferta actual de comentadores catitas em Portugal. Ali andam trocando de canal, queimadinhos da praia, camisa branca, tic-tic, cabelos pela testa adentro, olhar fixo e frases feitas de colegas anglófonos. Andam concentrados apenas nas suas próprias ideias, nos seus próprios pensamentos. É o tudo-ou-nada para o destaque baratucho.

O animal de estimação Silva Pereira disse anteontem, em sintonia com o jornalista brasileiro Miguel Sousa Tavares, que temos uma comunicação social “completamente livre”, e para o confirmar “basta ler os jornais”.

O enredo encanta. Livre? Estaremos a aplicar a teoria de relatividade à liberdade de imprensa? O antigo lápis azul de Salazar legitimará hoje pressões em redor de jornalstas incómodos porque a escala da censura é relativamente menor? Não sabia:

Tinha como conceito que qualquer tipo de interferência do Estado era perfeitamente inadmissível. Vejo agora que não será, porque “hoje nos esquecemos do que era a censura no Estado Novo.” Que beleza. Mas de onde vem isto? De onde vem esta afirmação geracional que nos transporta na memória até aos tempos cinzentos do Salazarismo? Que tem a anterior censura a ver com o contexto europeu em que se encontra Portugal hoje, posto a nú numa Europa sem fronteiras e defensora primária de um modelo democrático baseado na liberade do indivíduo e na responsabilidadde do cidadão?

O Larápio não entende a desvalorização imediata que se dá hoje ao plano tarado e opressivo para calar os inimigos do Estado. Esta tentativa de controle não é aceitável em circunstância alguma, em contexto algum. Muito menos será num país que partilha o espaço comunitário com os países criadores da Democracia que se conhece hoje.

Mas reafirmo a minha humildade. Se os comentadores e o nosso lindo Governo explicam que a censura se enterrou com Salazar a gente concorda, cala-se e pede uma cervejinha. Quem somos nós, jovens cibernautas da “geração do facilitismo” para falar nisso? Eles são mais velhos, mais sábios. E pensam que o seu contacto com a censura radical do Estado Novo nos remove o direito de identificar indícios fortes de influência Socratiana no telejornal da TVI e consequente indignação violenta. Mas porquê? Que tem um assunto a ver com o seguinte?

Camões teve de entregar os Lusíadas aos censores do Santo Ofício, e poucos anos antes já D.Henrique I tinha planeado a censura Inquisitorial. A censura é aliás um problema recorrente ao longo da nossa maravilhosa história. Mas não é exclusivo do Estado Novo.

A geração de Abril é tratada com respeito pela geração que agora se faz adulta. Libertaram o país da ignorânca planeada e promovida: Quem se formava mandava logo, e a infeliz maioria rural pegava na enchada ainda o sol não espreitava. Mas Alto! Não nos peçam que fiquemos quietos e mudos em contemplação drogada dos dissabores do Estado Novo porque naquele tempo havia PIDE. Esse respeito não deve atrofiar a determinação na procura incessante por um Estado justo e saudável, por muito longe que ele esteja.

O atraso e miséria do Portugal pré-revolução e consequente censura não serve de trampolim para a inércia. A censura é repugnante independentemente da sua amplitude e frequência, e quem viveu a revolução mais razões tem para se mostrar perplexo perante tão grave ameaça aos ideais pelos quais lutaram.

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Monday, January 25, 2010

A Legalização Moral do Roubo

Caro Leitor,

A terceira lei de Newton postula o seguinte: Exercendo o corpo A uma força sobre um corpo B, este em resposta exerce uma força sobre o primeiro de intensidade e direcção igual mas em sentido oposto.

Ora essa resposta, caro leitor, é o que aqui se escreve. De pulso firme e dentes cerrados.

O tribunal de Macedo de Cavaleiros condenou há umas dezenas de meses a empresa “O2 – Tratamentos e Limpezas Ambientais” ao pagamento de 105 000 euros à Refer. José Godinho, esse talentoso empreendedor, recorreu para o tribunal da Relação do Porto.

O anúncio da decisão seria feito dia 9 de Junho. Haveria uma cerimoniazinha de assinaturas e divulgação dos resultaods até então confidenciais. E assim foi. Nessa data os juízes Cândido Lemos, Henrique Araújo e Marques Castilho lá chegaram com ideias de  assinar o ocórdão após trabalho árduo, sério, sereno e imparcial.

Mas o mandado de busca de José Godinho explicita que dia 5 de Junho às 10h48 já ele ligava ao vice-presidente-companheiro Armando Vara a informar da vitória estrondosa no recurso. Dia 5??! Então mas se o documento é secreto até dia 9 como pode ser, homem? Até Henrique Araújo – um dos juízes inquiridos – confirmou à imprensa generalista que “o acórdão só pode ser conhecido depois de ser publicado”. Mas isso já a gente sabe, Senhor Doutor Juíz. E é por isso que uns falam do tempo, outros do Benfica e os que restam não querem comentar.

Enquanto o povo madrugava em Junho picando o bilhete do cacilheiro, José Godinho roncava até à hora de se atirar ao almoço. Ele cumprira já as suas obrigações, e colhia os frutos de tão meticuloso planeamento! Afinal, o mundo é de quem vence.

O Procurador Geral da República Pinto Monteiro pronunciou-se sobre o assunto: “foi aberto um inquérito que está no seu inicio”. O Larápio não ouviu bem. “Fala um animal?” O inquérito está no seu início mas o seu interesse mirra quando já se vislumbra o resultado. Ele diz mais qualquer coisinha mas o Larápio não se interessa muito. Porque o farei? Não é este homem o Primeiro Procurador nomeado pelo Governo? Não terá credibilidade nem como ajudante de guarda-livros. Houve protestos contra isto? Apupos? Preocupação? Nada – tudo correu suavemente. E se o Povo aceita, o polvo político avança de tentáculos viscosos e agarra tudo, arrasta tudo, consome tudo. É o que ele faz: protege quem lhe dá de mamar. E assim dá de mamar a outros.

Nós, povo, vamos caminhando entre a guerra miserável que é a vida Portuguesa. É um campo de batalha sem localização concreta – mas inimigos conhecidos. A suspeita de tão comum tornou-se tolerável. O leitor sabe que as gentes convivendo com moscas, passados uns anos sentimos-lhe a falta. E elas depois deixam de ser chatas; Passam a fazer parte da sujidade que nos acompanha. O zumbido grave perde a personalidade ruidosa e torna-se numa melodiazinha que relaxa. Passamos a ler o jornal com elas a passear em cima da camisa e deixamos de as sacudir como fazem à sombra os animais da selva.

A habituação entranha-se. E infiltra-se bem porque para isso basta a inércia que nos seduz com o seu charme de indiferença. Pantufas, cerveja na mão e a bola no écrã. Afinal somos latinos, não será? Isaltino rouba mas fez obra, e a imprensa anda sempre em cima dos desgraçados. É assim, leitor: O animal político de tão imundo tornou-se imune ao espanto do povo.

O Conselho Superior Magistratura atira que não tem conhecimento do caso, e o maravilhoso presidente da Associação Sindical dos Juízes Portugueses, António Martins, não comenta.

Acabo sugerindo umas poupanças neste orçamento de Estado: Extinga-se a Polícia Judiciária! Para que servem eles? Há creatividade nos nomes macabros dos processos. E o resto? Investigações sem julgamento são como uma perna de Porco sem pézinhos para a coentrada; servem para excitar o apetite mas o prazer é uma impossibilidade. O prazer da justiça, está claro. Ninguém pede mais nada.

Pois se não há condenações que secancelem as investigações e pronto. No verão há praia à mesma e com esses trocos que se construa mais uma auto-estrada Lisboa-Porto: O Larápio insiste no sonho de uma auto-estrada para cada Português.

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Sunday, December 6, 2009

Deus é Amor

O Estado Português cresce. Cresce?

Novos aeroportos, autoestradas largueironas, submarinos alemães. Ele anda em todo o lado; alarga as costas. O Estado Português tomou ar e incha, incha, cresce, expande-se! Tem já bochecha gorducha e formato de enchido. Cresceram-lhe tentáculos nos sovacos e tornozelos, viscosos e bruscos. Falta o ar à gente porque lá anda sempre o Estado. Nada fazemos sem ele porque dele dependemos para tudo. É o irmão mais velho de um órfão, a luz que nos guia!

Vá Filho, este mês há subsidio e férias
Vá filho, este mês há subsidio de férias

Suporta negóciozinhos amigos, aumenta as pensões sem aumentar as receitas, injecta três mil milhões no BPN, assegura a sobrevivência da CGD, paga a mais (!) pelas obras (assim diz o tribunal de contas), obras de “requalificação”, casas de férias na Serra da Arrábida.

O PCP aplaude.

Mais estágios nas câmaras, mais dinheiro para Alberto João Jardim, milhões em inaugurações de infra-estruturas já de si desnecessárias. A pala ondulante e branca debaixo da ponte é bonita, hein?! No verão dá uma sombrinha. Mais travessias sobre o Tejo, mais barrangens que não se aproveitam, nova frota de automóveis, remendos nas areias da Costa da Caparica por mau planeamento, sacos azuis, subsídios para híbridos, Frank Gehry, elevadores para o Castelo de S. Jorge, congressos partidários. Tudo pago pelo contribuinte.

Ora…mas que dimensão tem então o Estado? Será Santo? Omnipotente? Travesti? Que espécie de instituição é esta que pode pagar tudo, promover tudo, financiar tudo o que pretende sem nunca ter de coçar a careca? Maravilhosa esta entidade que está acima da terra. Vive no alto, flutua, é sagrada, poderosa, eternamente pia, transparente!

Leitor ingénuo:

Deus (através de uma conta bancária secreta) transfere uns milhões ao 4º dia de cada mês, e ao 6º dia já Teixeira dos Santos aprovou novos investimentos públicos, novos luxos, novas obras “urgentes para o desenvolvimento do país”, para a “modernização de Portugal”. Não sabia o leitor?

Mas esta não é uma quantia qualquer. Não é bem uma coisa fixa, sabe? No fundo, é um cheque em branco. Deus confia mesmo em José Sócrates Pinto de Sousa, e já que ele só quer o bem dos Portugueses pode então usufruir das poupanças de Deus Nosso Senhor. Sem juros nem chatices nem papeladas. Eu diria que isto é o aproveitar maldoso da generosidade interminável que tem Nosso Senhor De Todas As Coisas. Mas parece que não, que ele faz isto porque gosta da gente. Vá lá…

Pensava o leitor que Sócrates era um pacóvio de Vilar de Maçada, parte integrante de uma geração política de gente humilde que Guterres trouxe para Lisboa? Leia bem: Sócrates foi escolhido por intervenção divina. E quando assim é, gasta-se à vontade!

Pior seria se vivessemos como dantes, quando se tinha de pagar o que se pedia emprestado. Ui. Isso doía. Pedia-se ao banco e na altura de pagar lá vinham os juros, esses acréscimos ordinários que aparecem sem ser convidados. Chato este sistema: Comprava-se um electrodoméstico e vá de assinar; Mensalidades, contratos, obrigações, endividamento, férias no Seixal, fim de semana na Sogra. Era assim, leitor. E quando o Estado gastava a mais, pagavam os contribuintes com sacrifícios. Mas claro está não será este o nosso caso, porque ao 4º dia de cada mês já o Estado conta com o chequezinho assinado e pronto.

Isto parece-me injusto para os países centro-Europeus que vivem situações trágicas. Não há lá perspectivas de TGV nem estádios de futebol sem pala, e a hora de almoço é curtinha. Pior ainda, nem roubar se pode porque há lá condenações! Isso mesmo, condenações daquelas em que se tem de ouvir uma sentença sem que esta seja previamente combinada (como será isso? Saberá o juíz o que dizer?).

E mais! Aí o Estado tem de ter receitas antes de planear os luxos dos contribuintes. Receitas? Mas se a gente cá tem Deus!…

Fico feliz por saber que no meu país, Deus trata da gente. E trata bem.

Ámen.

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Friday, November 6, 2009

Proust e a Barriga de Jorge Coelho

Estimado Leitor,

O assunto é já de si resumido.

Querem disto?

Querem disto?

Esclareçamos a linguagem cebosa, barata, espessa e desleixada que o Larápio aqui emprega. Sabe, há quem proponha que eu passe a tom ameno-azul-cueca. Um lamento mais vago, literário, saudosista, conformado. Pensa-se então num Larápio amorfo. Será?

A resposta vomita-se: Neste espaço não há milímetro para moleza planeada, egoísta e prostituída. O Larápio interessa-se apenas e só na dor inesgotável da incongruência e desonestidade.

Para que fique claro: não tenho eu o privilégio de escolher o tom da conversa. Esse tom rouco há tempos que se impinge pelos corredores de S. Bento, adoptado por seres poderosos que emitem gargalhadas e lambem a ponta dos dedos à conta de quem tem dois empregos nocturnos para alimentar o filho que estuda.

As palavras que se utilizam num ensaio político contemporâneo têm obrigatoriamente de satisfazer a identidade estética do animal político que comentam. O sujeito é que manda, leitor! E quando cheira mal, o palavreado acompanha.

O tom foi criado por eles e suas caldeiradas ao meio-dia, e o Larápio sente que a este respeito não tem escolha alguma. Proust a medir as dobras da barriga de Jorge Coelho? Tolstoi em observação perspicaz do movimento discreto coça-tomates de Bernardino Soares? Ui, isso nunca. Adoptei então vocabulário que se ajustasse, e associei-lhes depois um animal (curiosmente viria a ser o Porco – sim, com letra maiúscula), para daí descrever aos meus leitores a convalescença cambaleante que estes senhores transportam para a vida de quem trabalha, se dedica e se atrapalha.

Afinal, a transparência compensa sempre.

Posted by xicovsousa in 20:14:56 | Permalink | Comments (3)

Sunday, November 1, 2009

A Bolota, a Banha e o Porco

Leitor honesto:

A banha de porco (essa pasta branca resultante da engorda contínua do fabuloso animal político “O Porco”) está em saldos. E atingiu mínimos perturbadores: Usa-se já como lubrificante automóvel.

Porco ou Javali? Pergunte ao Professor Marcelo. Ele respoderá escrevendo, lendo e falando. Tudo ao mesmo tempo.

Porco peludo ou Javali? Pergunte ao Professor Marcelo. Ele respoderá escrevendo, lendo e falando. Tudo ao mesmo tempo.

Malditos tempos esses em que para roubar se pagava. Se não em anos de cadeia seria em medo: Medo de ser acusado, de perder a família, o soninho leve, o respeito dos meninos nossos filhos. Temia-se que a sujidade perpétua se infiltrasse na memória póstume que nos substituírá para sempre.

Mas ao Larápio mete-lhe uma espécie tremenda: Para onde terá ido esse medo?

Que raio! Onde se meteu ele?

Comprou um T2 na Trafaria?

Emigrou?

Será ele incontinente?

Estaria ele interessado num dueto revivalista com Marco Paulo no programa “O Preço Certo”?

Escreverá ele com três mãos e duas cabeças como o Marcelo Rebelo de Sousa?

Ele não responde porque foi embora de vez (O Larápio sabe).

Esse medo foi-se para sempre. O político Português despreza totalmente a sua própria reputação. Jura que é mentira, chora, grita, evoca cabalas, feitiços, ratoeiras, mete dentes de alho à porta do quarto do advogado de acusação. Culpado, inocente, assim-assim, conivente, passivo, activo. Não interessa. É claramente uma Cabala! E está à vista de todos, povo ingénuo! Mas não se faz isto para limpar a alma, mantê-la transparente e entrar no céuzinho dos fiéis: Será antes com intuitos de evitar as grades de ferro, a tijoleira fria e o pénis grande que o espera no duche da cadeia do Aljube.

Mas há outros que não chegam a provar o saborzinho da dúvida sequer. O tio do Sócrates Júlio Monteiro chegou de Bentley ao tribunal para prestar declarações no caso “Fripór”. No segundo dia deixou o Bentley em casa: trouxe o Maserati. Que deleite este de engordar descansado. E além do descanso sobra ainda (na borda do prato) tempo para gozar o Estado e todo o sistema judicial Português. Que lindo: a pele estica, a boca abre e os dentes fecham. A gordura permanece mole e conformada nas dobras viscosas do intestino queixoso!

Pois isso mesmo. Os suores frios só os sentem quando o juíz é de longe ou o processo judicial independente. Quando o arguido é enteado ou compadre o julgamento é suave, descansativo, ameno, previsível. O sol brilha, a Caipirinha deixa-se beber, as ancas das amantes arredondam-se e até se chupam bem os ossos das costeletas para que não fique lá chicha bela. A festarola prolonga-se. E assim acontece porque só preocupa aquilo que não conseguimos nós prever. E enquanto houver dinheiro suficiente para pagar atençõezinhas a quem decide pode-se roncar alto e dormir de barriga para o ar porque em Portugal todos gostam de banha de Porco. Ui se gostam.

Benvindos sejam Armando Vara e José Godinho à lista de Porcos de engorda.











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Sunday, October 4, 2009

Inseguranças de um Cosmopolitismo Aldrabado

Caro Leitor,

Extraiamos as entranhas retorcidas e sôfregas àquele que tenta ser o que não é.

mulheres cultas é logo outra conversa

mulheres cultas é logo outra conversa

Clara Ferreira Alves é colega corrente de variadas personalidades pensantes do panorama comentarista Português.  Integra equipas de dadores de opinião moderna; gente inteligente que estudou lá fora e embeleza as palavras com ares de esquerda moderada e estrangeirismos propositados.

O programa televisivo para que contribui, “O Eixo do Mal”, é aliás uma bela e fundamental adição à oferta de entretenimento que nos toca: tem opiniões pertinentes e pensadas de quem as digere e expressa com clareza. Isto embora o objecto de comentário (política contemporânea Portuguesa) ofereça poucas hipóteses de desenvolvimento intelectual promissor.

Dia 14 de Setembro, Clara Ferreira Alves escreveu no Expresso. Desta vez foi uma crónica de nome “O Futuro das Cidades”.

É interessante ler e entender aquilo que escreve uma figura pública de conotação intelectual sobre uma cidade como Lisboa. Porquê? Porque Lisboa não é uma cidade imediata. Não se digere de repente, não se aceita logo num suspiro de encanto.

Lisboa não é um pronto-a-vestir. Amá-la exige um cosmopolitismozinho, iniciativa natural, orgulho no que é nosso e confiança  no que ela tem para oferecer. A cidade não oferece Monumentos Parisienses, sofredores de visitas asiáticas massificadas de turistas organizados em batalhões de fotógrafos amadores e mecanizados. Também não é ainda um centro de criatividade artística nem tem a organização, limpeza e grandiosidade de Nova Iorque, Londres, Amsterdam e metrópoles condizentes. Além disso, Lisboa não tem ainda muitas outras coisas de que ela não fala na crónica.

Diz ela logo no começo o seguinte:

“Desembarcar na Portela num domingo e fazer uma viagem de táxi por Lisboa, a ouvir um relato de futebol aos berros, é uma experiência terminal. Em alto contraste com a chegada a uma capital europeia”.

O Larápio, com toda a sua reconhecida humildade, reitera que a verdadeira “experiência terminal” é o contacto agoniante com esta elite-pimba de que ela faz parte. O que é bom está no estrangeiro de fora, não é Clarinha? Há que ir a Londres ver gente civilizada. Chega dos vagabundos na Calçada do Combro! Cheiram mal, pedem euros, gostam de vinho tinto, bebem da garrafa e entornam na camisola de flanela! Que vergonha.

As cidades não são espaços estéreis: elas vivem.  E para que as entendamos exigem de nós uma capacidade mínima de adaptação. Ao viajar e cruzar culturas, religiões e continentes, o exercício comum a todo o turista é uma tentativa de compreensão do que se passa à sua volta. A identidade estética, o comportamento das pessoas, o nível de vida, a oferta cultural, o clima, a hospitalidade. Observa-se, sente-se e só depois se poderá entender a cidade e aproveitar o que há nela de inspirador.

Mas Clara Ferreira Alves não está disponível para adaptações. Como pode?

Ora se já se passeou ela por Vienna num vestido preto e longo, se foi ao cocktail dos embaixadores Noruegueses em Paris, se foi à inauguração meditática de uma galeria de arte nos arredores industriais de Estocolmo!

Para que rasteja ela em Lisboa? “Lá fora” não há taxistas, não há futebol, não há bigodes nem barrigas.  Numa cidade europeia limpam-se as ruas mais vezes, não se grita, não se cospe, não se dá atenção às meninas apetitosas.

Clara quer ser cosmopolita. Quer muito. Anseia transformar-se num animal internacional, dissociar-se da nossa cultura sem expressão e aproveitar a conotação intelectual para se catapultar direito a uma arrogância que por ironia é de um provincianismo puro e evidente.

Mas o cosmopolitismo não é isso, amor. Ser viajado é saber encontrar o encanto de cada sítio, moldar a nossa mente ao que nos exige o momento, a vivência própria, a cultura local. Quem é culto é humilde, curioso, interessado, tolerante, observador e apreciador de cada cultura no seu contexto.

Lisboa tem personalidade própria. Tem História, bairrismo, decadência, vida ao ar livre, calor, o rio Tejo e uma Luz amarelada.

Nova Iorque lá anda; Densa, efeverscente, cultural, com excêntricos, cientólogos, génios, árabes, tarados, maldizentes, bilionários, bailarinos!

Mas isso é lá, Clara. Largue lá isso. Aqui temos passado, temos legitimidade, beleza antiga, ousadia, pobreza, protestos nas ruas, pretendentes a intelectuais, ruas estreitas, gente atenta, preguiçosa, assumida. A nossa terra tem virtudes, mentiras e peripécias. Diferentes daquelas que têm cidades mais ricas. Diferentes, não piores.

Lisboa é uma Cidade Europeia. Tem oferta cultural rica e crescente, comunidade internacional que aumenta, centro histórico respeitado, um rio que nos encanta, praias limpas a minutos. O problema não é Lisboa mas sim quem não a sabe viver. Se quer uma cidade “sustentável”, bicicletas, executivos, óculos Prada e estrelas de cinema, pedimos amavelmente a sua retirada. Cada cidade oferece o que pode, Dra. Só não poderemos aceitar que essa incapacidade de compreensão da sua própria cidade seja tornada pública.

Lisboa tem uma vivência exterior, de espírito independente, próximo, humanizado. Isso deveria ser, para qualquer escritora, um património de dimensão ilimitada, uma pérola que se guarda bem e se aproveita.

O Larápio diz que precisamos de uma renovação no panorama pensante Lisboeta. E, farto de pensar neste assunto, retira-se cordialmente.

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Tuesday, September 15, 2009

João Soares, a inutilidade em estado puro

João Soares:

Um mamífero amorfo e assexuado. Nasceu na a política mas só lhe acrescenta bocejos e mentiras gelatinosas. Há tempos escondeu-se na toca cómoda do anonimato prolongado, resguardando-se de todo o mediatismo incómodo que um qualquer dandy gorducho se dá ao lucho de dispensar.

…Mas regressou triunfante, em defesa daquilo que lhe dá guarida, vinho, fartura e proveito! Pois veio ele dar uma mãozinha graciosa ao seu colega-gatuno José, esse carente e terno como um cachorrinho rafeiro debaixo dos arcos frios da Rua da Boavista.

Ora ontem passou-se mais uma tarde singela e profundamente normal numa campanha legislativa Portuguesa. Todos os ingredientes lá andaram à vista: superficialidade confrangedora nos conteúdos, referências impróprias a adversários, simplicidade no vocabulário e uma disponibilidade comovente em dar o corpo, a alma e a palavra por uma lealdade partidária (ressuscitada em tempos eleitorais) que se quer reconhecida e compensada. E rápido!

Leitor,
Este não é exemplo do meu exacerbo recorrente! Cuidai, querido leitor, em saber quanto preza o Larápio esta noção de prostituição política. Há uma linha fina e clara que traça o limite a partir do qual há conivência e sujidade, e essa linha cabe às ideias de cada um. Para uns ela permanece firme e inalterável, mesmo em circunstâncias benéficas, benefícios imediatos, atençõezinhas de verão, oportunidades únicas! Não há para estes flexibilidade na localização da linha ténue, pois esta lá foi colocada por princípios intransponíveis.

Mas esta gente existe? Estão fracos, ausentes, adormecidos, bêbados, assustados pela reputação vergonhosa que carrega um cargo político Português (qualquer que ele seja, associado a qualquer partido).

Em Portugal, o sucesso político é de quem está lá , de quem se mostra disponível, está presente de dia, de noite, de madrugada! De quem se presta a ordens concretas, abusivas e provincianas, sempre com o olho na promoção corrupta.A culpa não é de quem ocupa os cargos, mas do sistema que os favorece a ocupá-los.

Sem saber porquê, este tema traz-me outra vez à cabeça o fabuloso João Soares, que espalhou toda a sua mediocridade num entusiasmante discurso pró-Sócrates.

Centrando toda a sua ira (intelectualmente estéril) em Manuela Ferreira Leite, dizia ele que ela tem uma visão “retrógada, passadista e conservadora”. Isto, claro, vem no contexto da tentativa desesperada que faz o PS para legitimar a estratégia de “investimento público”, em particular o TGV. No entender, Ferreira Leite coloca o país em posição de “isolamento, atraso e subdesenvolvimento”.  Leitor, isto é magistral.

Em primeiro lugar, esclareçamos ao PS o que é “investimento”.

a wikipédia anda aqui mais à mão:

Investimento é a aplicação de algum tipo de recurso (dinheiro ou títulos) com a expectativa de receber algum retorno futuro superior ao aplicado compensando, inclusive, a perda de uso desse recurso durante o periodo de aplicação

Ou seja, quem investe fá-lo com o objectivo claro e único de retorno financeiro.

Já vimos no post anterior (mas não necessitará de ler o post anterior quem tenha a mais pequena ideia de economia) que hoje, em Portugal, é perfeitamente mentiroso seguir a estratégia Keynesiana para ressuscutar a economia. Logo, ao PS resta exactamente o argumento do “investimento”, ou seja, de que este dinheiro terá retorno para o país. Mesmo que tivesse retorno, só investe 1.87 milhões de Euros no troço Lisboa-Poceirão quem tem liquidez, confiança e conforto financeiro que não temos. Mas deixemos até isso de lado! Partamos do principio de que podemos investir estes 14 mil milhões de euros. Para uma orientação concreta, leitor, o orçamento anual das Nações Unidas rondou, em 2008, os 27 mil milhões de Euros.

Lisboa-Madrid custará perto de 100 Euros, demorará 2 horas e 45 minutos e terá como concorrente directo uma maquineta antiga chamada “avião”, que faz a mesma viagem em 50 minutos (Acrescente-se mais 30 com o check-in feito online), e que tem preços mais baratos se comprados com antecedência.

Não estou aqui eu para fazer análises de mercado e viabilidade do investimento! Nada disso. Não sei eu fazê-las, e a havê-las bem feitas deveria tê-las encomendado o Governo. Eu argumento outra coisa:

Não é este, caro Sócrates, um negócio da China!

O último reduto do Guerreiro Sócrates (que era o retorno financeiro do TGV) parece fragilizado pelas circunstâncias.

-Ah!

Diz o José

- Ó Larápio! E o troço Lisboa-Poceirão? Não falas desse não é? Aí está a chave justificativa deste investimento imperial!

responde o Larápio de vinho verde na mão direita:

-Ui. Agora José, apanhaste-me cruelmente! O Poceirão, com 4300 habitantes e uma periferia de densidade populacional fantasmagórica decerto que irá justificar um investimento de 1.87 mil milhões de Euros! Tem uma indústria 100% composta pelo sector da restauração que está a crescer de maravilhas, e talvez eles queiram gastar os pacatos extra em 30 viagens diárias de ida e volta a Lisboa. Sim senhor.

Não há maior prioridade Portuguesa do que poupar 15 minutos numa viagem Lisboa-Poceirão! Numa sexta-feira poderá poupar-se, quem sabe, mais de meia-hora!

Justiça corrupta, escolas “temporárias”, universidades miseráveis, ministros bêbados, oposição adormecida, crónicas do Vital Moreira, endividamento público fora de órbita e “optimismo” no poder. Mas no meio disto, nada mais tenebrosamente urgente que um TGV, porque como diz João Soares:

- Não aceito lições de patriotismo bacoco de quem dois anos depois de ter sido ministra das finanças foi trabalhar ao serviço de um banco espanhol.

Bom. Mas estavamos a falar do TGV, certo? Não se fará este debate com números, estudos credíveis, balanços sérios, análises profundas feitas por quem sabe?

Mas o debate sobre o TGV (que nem deveria ser debate) faz-se de lições incompreendidas de patriotismo? De acusações açanhadas e desactualizadas de um emprego no estrangeiro? Mesmo que o debate fosse de patriotismo, trabalhar em Espanha é prova do contrário? Em que século vivemos? Aljubarrota? Ainda?

Chega, João. Em tão simples frases e oportunidades se confirma tamanha incapacidade de discutir temas simples. Acusações, piadinhas, dedo apontado a outros à custa de favores de outrém. O país pede que pares. E pede também a irracionalidade que lhes dês descanso.

Posted by xicovsousa in 14:46:05 | Permalink | Comments (1) »