João Soares:
Um mamífero amorfo e assexuado. Nasceu na a política mas só lhe acrescenta bocejos e mentiras gelatinosas. Há tempos escondeu-se na toca cómoda do anonimato prolongado, resguardando-se de todo o mediatismo incómodo que um qualquer dandy gorducho se dá ao lucho de dispensar.
…Mas regressou triunfante, em defesa daquilo que lhe dá guarida, vinho, fartura e proveito! Pois veio ele dar uma mãozinha graciosa ao seu colega-gatuno José, esse carente e terno como um cachorrinho rafeiro debaixo dos arcos frios da Rua da Boavista.
Ora ontem passou-se mais uma tarde singela e profundamente normal numa campanha legislativa Portuguesa. Todos os ingredientes lá andaram à vista: superficialidade confrangedora nos conteúdos, referências impróprias a adversários, simplicidade no vocabulário e uma disponibilidade comovente em dar o corpo, a alma e a palavra por uma lealdade partidária (ressuscitada em tempos eleitorais) que se quer reconhecida e compensada. E rápido!
Leitor,
Este não é exemplo do meu exacerbo recorrente! Cuidai, querido leitor, em saber quanto preza o Larápio esta noção de prostituição política. Há uma linha fina e clara que traça o limite a partir do qual há conivência e sujidade, e essa linha cabe às ideias de cada um. Para uns ela permanece firme e inalterável, mesmo em circunstâncias benéficas, benefícios imediatos, atençõezinhas de verão, oportunidades únicas! Não há para estes flexibilidade na localização da linha ténue, pois esta lá foi colocada por princípios intransponíveis.
Mas esta gente existe? Estão fracos, ausentes, adormecidos, bêbados, assustados pela reputação vergonhosa que carrega um cargo político Português (qualquer que ele seja, associado a qualquer partido).
Em Portugal, o sucesso político é de quem está lá , de quem se mostra disponível, está presente de dia, de noite, de madrugada! De quem se presta a ordens concretas, abusivas e provincianas, sempre com o olho na promoção corrupta.A culpa não é de quem ocupa os cargos, mas do sistema que os favorece a ocupá-los.
Sem saber porquê, este tema traz-me outra vez à cabeça o fabuloso João Soares, que espalhou toda a sua mediocridade num entusiasmante discurso pró-Sócrates.
Centrando toda a sua ira (intelectualmente estéril) em Manuela Ferreira Leite, dizia ele que ela tem uma visão “retrógada, passadista e conservadora”. Isto, claro, vem no contexto da tentativa desesperada que faz o PS para legitimar a estratégia de “investimento público”, em particular o TGV. No entender, Ferreira Leite coloca o país em posição de “isolamento, atraso e subdesenvolvimento”. Leitor, isto é magistral.
Em primeiro lugar, esclareçamos ao PS o que é “investimento”.
a wikipédia anda aqui mais à mão:
Investimento é a aplicação de algum tipo de recurso (dinheiro ou títulos) com a expectativa de receber algum retorno futuro superior ao aplicado compensando, inclusive, a perda de uso desse recurso durante o periodo de aplicação
Ou seja, quem investe fá-lo com o objectivo claro e único de retorno financeiro.
Já vimos no post anterior (mas não necessitará de ler o post anterior quem tenha a mais pequena ideia de economia) que hoje, em Portugal, é perfeitamente mentiroso seguir a estratégia Keynesiana para ressuscutar a economia. Logo, ao PS resta exactamente o argumento do “investimento”, ou seja, de que este dinheiro terá retorno para o país. Mesmo que tivesse retorno, só investe 1.87 milhões de Euros no troço Lisboa-Poceirão quem tem liquidez, confiança e conforto financeiro que não temos. Mas deixemos até isso de lado! Partamos do principio de que podemos investir estes 14 mil milhões de euros. Para uma orientação concreta, leitor, o orçamento anual das Nações Unidas rondou, em 2008, os 27 mil milhões de Euros.
Lisboa-Madrid custará perto de 100 Euros, demorará 2 horas e 45 minutos e terá como concorrente directo uma maquineta antiga chamada “avião”, que faz a mesma viagem em 50 minutos (Acrescente-se mais 30 com o check-in feito online), e que tem preços mais baratos se comprados com antecedência.
Não estou aqui eu para fazer análises de mercado e viabilidade do investimento! Nada disso. Não sei eu fazê-las, e a havê-las bem feitas deveria tê-las encomendado o Governo. Eu argumento outra coisa:
Não é este, caro Sócrates, um negócio da China!
O último reduto do Guerreiro Sócrates (que era o retorno financeiro do TGV) parece fragilizado pelas circunstâncias.
-Ah!
Diz o José
- Ó Larápio! E o troço Lisboa-Poceirão? Não falas desse não é? Aí está a chave justificativa deste investimento imperial!
responde o Larápio de vinho verde na mão direita:
-Ui. Agora José, apanhaste-me cruelmente! O Poceirão, com 4300 habitantes e uma periferia de densidade populacional fantasmagórica decerto que irá justificar um investimento de 1.87 mil milhões de Euros! Tem uma indústria 100% composta pelo sector da restauração que está a crescer de maravilhas, e talvez eles queiram gastar os pacatos extra em 30 viagens diárias de ida e volta a Lisboa. Sim senhor.
Não há maior prioridade Portuguesa do que poupar 15 minutos numa viagem Lisboa-Poceirão! Numa sexta-feira poderá poupar-se, quem sabe, mais de meia-hora!
Justiça corrupta, escolas “temporárias”, universidades miseráveis, ministros bêbados, oposição adormecida, crónicas do Vital Moreira, endividamento público fora de órbita e “optimismo” no poder. Mas no meio disto, nada mais tenebrosamente urgente que um TGV, porque como diz João Soares:
- Não aceito lições de patriotismo bacoco de quem dois anos depois de ter sido ministra das finanças foi trabalhar ao serviço de um banco espanhol.
Bom. Mas estavamos a falar do TGV, certo? Não se fará este debate com números, estudos credíveis, balanços sérios, análises profundas feitas por quem sabe?
Mas o debate sobre o TGV (que nem deveria ser debate) faz-se de lições incompreendidas de patriotismo? De acusações açanhadas e desactualizadas de um emprego no estrangeiro? Mesmo que o debate fosse de patriotismo, trabalhar em Espanha é prova do contrário? Em que século vivemos? Aljubarrota? Ainda?
Chega, João. Em tão simples frases e oportunidades se confirma tamanha incapacidade de discutir temas simples. Acusações, piadinhas, dedo apontado a outros à custa de favores de outrém. O país pede que pares. E pede também a irracionalidade que lhes dês descanso.